ResearchGate, o “Facebook dos cientistas”, quer mudar a cara da ciência

by Gabriel Mallet Meissner on 23 de Fevereiro de 2012

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Quando Tim Berners-Lee criou o que viria a ser conhecido como a rede mundial de computadores, a Internet, em 1989, seu objetivo era facilitar a colaboração entre cientistas em suas pesquisas. Embora a web tenha revolucionado as comunicações e o mundo, até hoje deixa a desejar no cumprimento de sua meta original. O problema não está na tecnologia, mas no ser humano. Acontece que o meio acadêmico é altamente competitivo: cada um disputando bolsas, financiamentos a pesquisas e procurando aumentar o seu status na comunidade. A consequência? Cientistas pouco dispostos a compartilhar suas pesquisas entre si.

Se por um lado essa postura é compreensível – ou entranhada na academia e no mercado –, por outro é uma lástima pois o trabalho colaborativo e o crowdsourcing têm provado ser altamente profícuos em diversas áreas do conhecimento. A ciência só teria a se beneficiar de um ambiente colaborativo online que facilitasse o seu desenvolvimento e novas descobertas. Mas cientistas, em geral, veem nesta atitude pouco benefício próprio para suas carreiras.

Um dos problemas decorrentes desse comportamento é a multiplicação de erros e a eterna reinvenção da roda. Explico: manter pesquisas em sigilo faz com quem novos pesquisadores repitam erros já cometidos e corrigidos pelos mais experientes, retardando o processo de novas descobertas científicas. Assim, perdem os pesquisadores mais jovens, que poderiam se beneficiar mais da experiência de pesquisadores mais velhos que não sejam, necessariamente, os seus orientadores. Perdem também os mais velhos, que poderiam se surpreender com uma solução descoberta por um colega mais jovem. Em última análise, perde a sociedade que sempre se beneficia de cada nova descoberta no campo da ciência.

Felizmente, nem todos os cientistas parecem assim. O virólogo e cientista da computação Ijad Madisch, é um deles. Madisch é fundador e CEO do ResearchGate, conhecido como o “Facebook dos cientistas”, que se propõe justamente a concretizar o sonho de Tim Berners-Lee: tornar a colaboração entre cientistas de todo o mundo uma realidade de fato.

Ele só quer ganhar o Prêmio Nobel e mudar o mundo. Nada demais.

A empresa, que hoje tem 5 anos, já conquistou 1,4 milhão de usuários. A maior parte deles é jovens cientistas, na casa dos 20 anos, que possuem um perfil mais propenso ao compartilhamento e ao crowdsourcing. A rede é usada, principalmente, para compartilhar relatórios de pesquisas e fazer perguntas sobre suas pesquisas atuais, na esperança de que pesquisadores de diferentes partes do planeta se auxiliem mutuamente.

A ideia parece estar dando tão certo que Ijad Madisch acaba de conseguir novos financiamentos para a sua startup (os valores não foram divulgados). Seu argumento para convencer investidores a apostarem na sua empresa? “Meu objetivo é ganhar o Prêmio Nobel”, diz Madisch, que pretende merecê-lo ajudando a mudar a cara da comunidade científica. O que é mais interessante na sua ambição é a percepção de que uma mudança da cultura dos pesquisadores pode ser tão ou mais valiosa do que uma descoberta científica em si mesma, por mais importante que ela seja. Simplesmente porque essa mudança poderia viabilizar estas novas descobertas.

“Eu poderia estar mudando uma disciplina, mas eu queria mudar mais do que isso… e acho que se você puder tornar o compartilhamento de pesquisas mais fácil, então isso pode mudar o mundo”, diz.

Enquanto a rede parece estar sendo bem sucedida em sua missão de convencer investidores a botarem dinheiro nela, o desafio que enfrenta é o mesmo de tantas outras startups: como torná-la lucrativa? Afinal, boas intenções de mudar o mundo não pagam as contas e a empresa precisa ser sustentável no longo prazo.

No momento, a ResearchGate está faturando ao desenvolver versões privadas do seu sistema, para funcionar apenas dentro do firewall de determinadas instituições. O que ajuda o compartilhamento e a colaboração de pesquisadores de uma mesma universidade, mas contradiz de certa forma a intenção de estender essa colaboração a um ambiente aberto. Mas é preciso dar um passo de cada vez, afinal.

Seu argumento para convencer investidores a apostarem na sua empresa? “Meu objetivo é ganhar o Prêmio Nobel.”

Há outras oportunidades de negócios, entretanto. Algumas possibilidades no horizonte da empresa são criar um diretório de empregos para cientistas, um sistema de gerenciamento de reputação e anúncios contextuais. Só o tempo dirá se isso dará certo. O fato é que os muitos trilhões de dólares injetados em pesquisa científica nos EUA a cada ano, mesmo com os recentes cortes de verba devido à crise financeira internacional, indicam que há um grande potencial neste campo.

A nós, leigos entusiastas da ciência, só resta torcer para que a ResearchGate tenha um longo e próspero futuro, ajudando de fato a mudar a comunidade científica. E, por que não?, o mundo.

Com informações do GigaOM.

é editor da Revista Entremundos.

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