O meu problema é sério, o seu é frescura

by Gabriel Mallet Meissner on 8 de Fevereiro de 2010

Sejamos francos: a unidade de medida que nós mais usamos no dia-a-dia são os nossos próprios umbigos. Nós definimos o tamanho do mundo e a relevância dos seus acontecimentos de acordo com ele. Por isso, consideramos que importante é o que nos afeta. O que afeta ao outro é frescura. Simples assim. Triste, sem dúvida. Mas verdadeiro.

Outro dia estava assistindo a uma matéria na Globonews sobre enxaqueca. Enxaqueca é um problema sério e quem sofre disso realmente fica totalmente fora de órbita durante as crises. Segundo os entrevistados na matéria, um dos maiores desafios que enfrentam é fazer as pessoas com quem convivem entenderem que este é, de fato, um problema sério, o qual precisa ser tratado e que, em muitos casos, torna-se incapacitante. Muitos têm dificuldade em entender isso, pois, afinal “todo mundo tem dor de cabeça de vez em quando”. Dessa forma, a percepção da sua própria experiência os impede de compreender a experiência do outro. Acredita-se que sejam todas iguais. Portanto, se a minha experiência não foi séria ou preocupante, como a do outro pode ser? Frescura!

Quem sofre de depressão passa pelo mesmo problema. Como todos ficamos tristes ocasionalmente, e isso não afeta demasiadamente as nossas vidas, é difícil compreender que a tristeza que todos sentimos é uma experiência completamente diferente da que que vive quem sofre deste mal. Enquanto tristeza é um sentimento normal, e até saudável em determinados momentos, a depressão é uma doença que muitas vezes é grave e pode destruir completamente a vida de uma pessoa. Mas não conseguimos enxergar dessa maneira. Como assim o que o meu colega vive é diferente daquela tristeza que eu sinto de vez em quando, nos momentos em que as coisas dão errado? Ah, besteira!

Tenho uma amiga que sofre deste problema de tempos em tempos. Ela tem um problema muito sério de coluna, que quase a deixou paralítica aos 12 anos. Precisou fazer uma cirurgia complicadíssima e soldar duas vértebras para continuar andando. Durante a cirurgia, por muito pouco, não morreu na mesa de operação, após uma parada cardíaca. Hoje, no geral, vive uma vida normal. Porém, ainda enfrenta crises violentas de dor na coluna, que a deixam de cama durante dias, inoperante. Porém, alguns amigos ficam bravos quando ela tem que recusar convites para sair por causa disso. “Pô, assim não dá, sempre que a gente chama, tá desse jeito. Mas, pô, todo mundo tem dor nas costas.”

É, todo mundo tem dor nas costas. Mas nem todos têm duas vértebras soldadas. Não é a mesma coisa.

A questão é que usamos o nosso umbigo como medida do mundo e nem nos apercebemos disso. Achamos que as nossas avaliações sobre as condições de vida do outro são acuradas, quando estão totalmente fora de sintonia com o que ele realmente vive. De fato, só é possível compreender a situação de outra pessoa quando abandonamos a pré-concepção de que achar que as nossas experiências pessoais são capazes de explicar e ilustrar as das outras pessoas.

Não, não são capazes. Assim como as experiências dos outros não explicam as nossas. Cada um de nós possui uma singularidade que não tem igual nem semelhante. Não existem indivíduos “genéricos”, somos todos “produtos exclusivos e customizados”. Só através da empatia é possível compreender-lhes. Por empatia eu quero dizer procurar pensar e sentir como o outro para ser capaz de ao menos ter um lampejo de como é sua vida interior.

Sem a empatia, estamos todos condenados à incompreensão mútua. E essa não me parece uma idéia.

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é editor da Revista Entremundos.

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