Hoje é o Blog Action Day 2010, um dia em que milhares de blogueiros de todo o mundo escrevem sobre um tema de relevância global. Este ano, o tema proposto pela organização do evento é a escassez de água potável no mundo. O post de hoje é minha contribuição para o BAD 2010 e fala sobre a relação da escassez de água potável e conflitos regionais.
“Whisky é para beber. Água é para brigar por ela.”
O problema da escassez de água potável
Basicamente, a escassez de água em um nível mundial se deve a:
1) O aumento vertiginoso da população mundial (superpopulação), aliado a fatores como urbanização, poluição e industrialização, diminui cada vez mais o recurso natural mais precioso do planeta: a água potável, tornando escassa a sua oferta per capita. Estima-se quem, em 2025, mais de dois bilhões de pessoas viverão em países nos quais será difícil ou mesmo impossível usar suas reservas de água para atender às suas necessidades na agricultura, indústria e habitações.
2) Como se isso não bastasse, as maiores reservas de água potável do mundo encontram-se em regiões fronteiriças, isto é, entre dois ou mais países. Por exemplo, no Oriente Médio mais de 90% da água potável encontra-se em fronteiras internacionais. O que leva à seguinte questão nestas regiões: a quem pertence essa água? Essa incerteza eleva as chances de surgirem conflitos pela disputa de sua posse.
3) Finalmente, a maioria dos modelos climáticos estão de acordo que as chuvas no mundo devem diminuir em mais de 20% até 2050, agravando ainda mais uma situação que já é hoje periclitante.
Um exemplo concreto: o conflito religioso que não é conflito religioso
Isso tudo parece muito teórico para você? Pois saiba que este problema não é apenas uma hipótese, e sim uma realidade. Conflitos causados pela escassez já acontecem em algumas regiões do planeta e a tendência é que passem a ocorrer também em outras. Tomemos como exemplo o Conflito de Durfur, que começou em 2003 e já levou a mais de 400.000 mortes, segundo estatísticas.
Durfur é uma região do Sudão em que um conflito armado opõe os janjawid, muçulmanos, a povos não muçulmanos. Geralmente, o conflito desta região é descrito como tendo origem em diferenças étnicas e religiosas. Porém, há notícias que mostram como a disputa por água potável também possui um papel importante em toda essa questão. Um relatório do Council on Foreign Relations, de 2006, diz: “O conflito que levou à crise surgiu da tensão entre grupos de fazendeiros nômades que estavam competindo por água e terra para pastagens – ambos recursos cada vez mais escassos devido à expansão do Deserto do Saara.” Esta é uma constatação apoiada pela ONU. Outro relatório, este da UN Development Program, de 1999, afirma que as disputas sobre reservas escassas de água, nos próximos 25 anos, seriam o principal fator que levaria aos maiores conflitos na África.
Assim, o conflito que freqüentemente é descrito como religioso, em um país em que quase 100% da população compartilha a mesma religião, tem sido considerado por importantes organizações como tendo sua origem na escassez de água potável. Este é apenas um exemplo entre vários outros, na África e no Oriente Médio, que poderiam ser usados para ilustrar este tópico.
Uma solução possível
Mas nem tudo são lágrimas. Para cada conflito existe também uma oportunidade. Com isso em mente, Kevin Watkins e Anders Berntell, em um artigo para o NY Times, delineiam quatro regras que, segundo eles, poderiam levar às nações à cooperação, ao invés do conflito, pela água potável. Vamos conhecer cada uma dessas regras.
1) Os governos devem parar de tratar a água como um recurso infinito, pelo simples fato de que não é. Deve-se considerar que a sua escassez se deve a políticas econômicas deficientes, que devem ser corrigidas aumentando a eficiência do uso da água e a sua conservação através de tecnologias mais eficientes na agricultura e na indústria.
2) Os países devem evitar o unilateralismo. Qualquer alteração no uso de águas fronteiriças devem ser negociadas em conjunto e não impostas.
3) Os governos devem olhar além das suas fronteiras nacionais para o uso compartilhado e cooperativo de bacias hidrográficas. Rios e outras reservas de água que atravessam diferentes países devem ser administradas em conjunto para melhor eficiência.
4) Os líderes políticos devem estar envolvidos nesta questão, que não é o que geralmente acontece. O debate sobre o uso de águas fronteiriças tem sido dominado unicamente por técnicos na área e os líderes políticos mundiais têm sido pouco presentes nesta discussão. Sem os líderes mundiais envolvidos nesta discussão, não há como levar a cooperação entre países muito longe.
Obviamente, a solução não é simples. Mas é necessária. E nós, cidadãos e eleitores, devemos acompanhar o que nosso líderes eleitos pensam e fazem a respeito desta questão. Esta questão também é relevante ao Brasil que, mesmo tendo a segunda maior bacia hidrográfica do mundo (“perdemos” apenas para a África como um todo), também já vive este problema, em menor escala (mas com tendências a aumentar no futuro próximo).
Fontes de informação
Para saber mais sobre o assunto, consulte os artigos que usei como fontes de informação para este post:
A global problem: How to avoid war over water
Scarce water the root cause of Darfur conflict?
War Over Water Predicted By United Nations Environment Official


