Conar faz a devassa na propaganda brasileira

by Gabriel Mallet Meissner on 22 de Julho de 2010

Lembra-se de quando em março o Conar suspendeu a exibição na TV da propaganda da cerveja Devassa (veja o vídeo aqui), com a socialite Paris Hilton, alegando ser “sensual demais”? A Schincariol (dona da marca) foi obrigada a veicular somente uma versão editada do filme e, desde então, tem tentado fazer o conselho voltar atrás na sua decisão. Ontem, porém, o Conar decidiu proibi-la definitivamente, pois a propaganda teria um apelo sexual excessivo, denegriria a imagem feminina e a induziria os consumidores ao abuso de bebidas alcoólicas. Agora, ou a Schincariol reformula a campanha e abandona seu excelente slogan (“Bem gelada. Bem loura. Bem Devassa.”), ou não poderá voltar a exibir seus comerciais na TV.

A decisão se torna difícil de compreender quando vemos tantas outras marcas de cerveja usando e abusando de sensualidade e da figura feminina em suas campanhas. Como a propaganda da Glacial, com a Ellen Roche fazendo cara de “vem que tô facinha” ao lado do slogan “entre no clima” ou a campanha da Antarctica, com Juliana Paes em trajes sumários sendo chamada de “A Boa”, apelido pra lá de sugestivo. Esta última campanha nunca sofreu qualquer espécie de censura (ou autorregulamentação, como lhe chama o Conar) e foi inclusive utilizada como exemplo na defesa da Schincariol. Sem sucesso, entretanto. A regra que acabou prevalecendo foi a dos dois pesos e das duas medidas.

(O texto continua depois da imagem)

O mais curioso, aliás, é que nenhuma campanha de cerveja mostra uma mulher tão vestida quanto Paris Hilton na propaganda da Devassa. Mas então porque o vídeo causou tanta controvérsia? No meu post “Porque não fugir da controvérsia e das críticas” eu arrisquei uma análise:

1) A Devassa escolheu como garota-propaganda uma das celebridades mais controversas da atualidade. Afinal, Paris Hilton se tornou conhecida do grande público graças a um filme pornô caseiro que vazou na internet.

2) Propagandas de cerveja geralmente usam e abusam de mulheres semi-nuas e curtição. Mas isso se tornou tão comum que não mexe mais com a mente do consumidor. É apenas mais do mesmo. A propaganda com a Devassa optou por centrar a sua história em sedução e voyeurismo – no proibido, no imoral, no que não se fala. E com isso não mexe apenas com o olhar do consumidor, mexe com a sua mente, com os seus desejos ocultos e não declarados, justamente o oposto das propagandas habituais.

Em toda essa polêmica, além do fato de serem usados dois pesos e duas medidas, eu queria uma coisa: será que o Conar REALMENTE acredita que a propaganda da Devassa induza ao abuso de álcool, enquanto as outras não? Por que a propaganda com Paris Hilton seria um risco à sociedade e tantas outras com Juliana Paes, Ellen Roche, Maryeva não o seriam? Difícil encontrar uma resposta satisfatória para isso.

Segundo o site AdNews, no primeiro semestre deste ano o Conar julgou 147 casos de comerciais acusados de serem anti-éticas. Destas, 27 propagandas foram suspensas e outras 72 precisarão ser alteradas. Pelo jeito, o Conar resolveu fazer a devassa na propaganda brasileira.

é editor da Revista Entremundos.

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