Anos atrás, eu estava em uma lotação indo ao trabalho, quando a perua foi fechada por outra. Os motoristas de cada veículo se conheciam. A motorista da lotação em que eu estava começou reclamar, com razão, da atitude do outro. E concluiu com a seguinte pérola: “E isso que ele vai na igreja! Imagina se ele foi um… um… um ateu!”
Para o religioso, pior do que o crente de outra religião é aquele que não tem religião alguma e não crê em deus. Se alguém que vai toda semana à igreja faz uma coisa dessas, imagina o que faria se fosse ateu, minha Nossa Senhora? Roubaria? Estupraria? Mataria? Que atos inomináveis seria capaz de cometer?
O fato é que, em uma sociedade que luta pela tolerância religiosa, ateus e agnósticos ainda sofrem preconceito. E eles nem podem, por exemplo, ser incluídos no fenômeno do diálogo inter-religioso (no qual cada participante se esforça ao máximo para fingir que respeita a religião do outro).
Muitos anos atrás, quando eu era ateu, sentia isso na pele. Ao dizer que eu era ateu, sempre havia alguns (ou muitos) que me olhavam com desconfiança ou desprezo. E alguns com incompreensão, pois nem ao menos conseguiam conceber que alguém possa não ter fé alguma. De certa forma, era engraçado. Eu entendia os motivos que os levavam a crer no que quer que fosse. Por que então eles não conseguiam entender os motivos que me levavam a não acreditar em nada?
Enquanto membros da religião X podem ser vistos como “heréticos” pelos membros da religião Y — e vice-versa! -, o ateu é um pária para ambos. O membro da “outra religião” pode estar com o diabo, mas o ateu é ainda pior: nem com o diabo ele está!
Com esse preconceito em vista, recentemente a ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) criou uma campanha publicitária promovendo o ateísmo. Ou ao menos o direito a ele. O intuito é que esta campanha fosse veiculada em ônibus de Salvador e Porto Alegre. Infelizmente, elas foram barradas, por medo das companhias de transporte em veicular as peças “polêmicas”. São quatro peças que fazem algumas provocações e, no fundo, convites ao raciocínio. Vamos ver?
Deus não define caráter
Essa é a crítica mais fundamental ao senso comum religioso que a campanha faz. Voltando ao começo deste texto, lembra-se de como a motorista do lotação achava que, se o outro motorista fosse ateu, faria atos ainda piores do que fechá-la no trânsito?
Mas aí vem a campanha e mostra dois personagens emblemáticos: Charles Chaplin e Hitler. O primeiro, brilhante comediante do cinema mudo, era ateu. O segundo, responsável pelo genocídio de judeus durante a 2a Guerra Mundial, acreditava em Deus e se considerava um bom cristão.
O maior erro da religião de massa é acreditar que basta se afiliar a denominação X ou Y para ser “salvo”, “especial”, “de Deus”. Porém, a história demonstra muito bem que ser nominalmente religioso não é nenhuma garantia de caráter, moralidade ou ética.
A fé não dá respostas. Só impede perguntas.
Outra crítica importante, mas com a qual concordo apenas em parte. De fato, a fé não dá respostas e nem é esta a sua função. A fé uma ligação emocional e espiritual com o Sagrado de cada religião e não concede conhecimento de nada. A segunda parte da crítica deve ser melhor analisada. A fé cega de fato impede perguntas e disso a história também é testemunha.
Porém, nem toda fé é cega. Há também o que alguns teólogos chamam de fé raciocinada. Leonardo Boff fala sobre isso em Os Terapeutas do Deserto, quando afirma que a fé que não acolhe a dúvida não é fé verdadeira. Fé, para ser fé, se alimenta da própria dúvida. Esse é um papo (muito) longo que não cabe explicar agora — quem sabe em outro post.
De qualquer forma, também gostei dessa peça da campanha da Atea, por lembrar como a fé cega promovida pelas religiões de massa são um grande atraso de vida. Pois não há desenvolvimento para a sociedade e para o indivíduo quando não há incerteza e dúvidas. E isso vale para religiosos e não-religiosos da mesma maneira.
Somos Todos Ateus Com os Deuses dos Outros
Isso me lembra uma frase do grande mitologista Joseph Campbell: “Mitologia é a religião do outro.” O senso comum diz: “o meu Deus é real. O seu é uma lenda”. Se eu sou teísta em relação ao deus que eu adoro, sou ateu em relação ao que você adora. Portanto, não há grande diferença entre teístas e ateus. Os primeiros acreditam que 99% dos deuses do mundo são lendas. Os segundo, acreditam que 100% deles o sejam.
A reflexão é válida. Só faço um reparo: esse raciocínio apenas se aplica ao monoteísmo. Em religiões politeístas, o fato de um religioso acreditar nos seus próprios deuses não o faz desacreditar necessariamente de outros. E ainda há muita gente politeísta no mundo. O politeísmo sempre foi visto pela sociedade européia cristã como uma filosofia barbárica do passado. Mas uma coisa é fato: o monoteísmo promoveu muito mais preconceito, muitas vezes acompanhado de genocídio, do que o politeísmo, em que a tolerância à fé alheia é apenas um passo natural da sua própria fé.
Se Deus existe, tudo é permitido
Religiosos costumam pensar que apenas a crença em Deus pode trazer valores morais e éticos ao ser humano, determinando o que é permitido e o que é proibido no mundo, separando o que é benéfico do que é maléfico. A falha neste raciocínio é que cada religião — e mesmo cada seita dentro de uma mesma religião — determina códigos morais diferentes e contraditórios entre si. E todas as religiões defendem que este código provém da mesma fonte: Deus. Portanto, o ato permitido por Deus em uma religião é proibido pelo mesmo Deus em outra. Enquanto que o ato proibido em uma religião é permitido em outra que tem o mesmo Deus como princípio fundamental. Daí que o assassinato e o genocício de “infiéis”, por exemplo, pode ser considerado moral ou imoral, correto ou errado, por diferentes religiões e seitas que crêem no mesmo Deus. Assim, se o Todo-Poderoso existe, tudo é permitido: dos atos mais nobres aos mais barbáricos.
Isso só mostra o quanto a discussão da ética e da moral é difícil. As religiões de massa tentam simplificar essa questão determinando o que é aceito ou não “aos olhos de Deus”. Mas, pelos motivos acima, esta é uma pseudo-solução. Tirando Deus da equação, este debate continua acirrado e de difícil resolução. Mas ao menos é um debate que passa a aceitar a dúvida, o questionamento e, portanto, a busca de um código de valores melhor. Enquanto que o código de valores assumido por um religioso, mesmo quando se mostra inadequado, dificilmente será questionado e alterado, pois a fé o torna “eterno” e “divino”.
Sobre cada uma das peças publicitárias da ATEA muito mais poderia ser discutido. Mas aqui cabe apenas dar uma cutucada no assunto. O mais importante de se notar é que as “certezas” do senso comum religioso podem ser facilmente questionadas, derrubadas e substituídas pelo pensamento ateísta, sem prejuízo à sociedade e ao indivíduo, como normalmente o religioso acredita que aconteceria. A idéia é quebrar preconceitos e estereótipos, o que é sempre fundamental para que qualquer questão seja pensada em profundidade.
Um esclarecimento: eu fui ateu desde que nasci até os meus 18 anos, quando então comecei minha busca espiritual por motivos que não cabe explicar agora. Mas o fato de hoje ser, ao meu próprio modo, religioso não me impede de questionar qualquer dogma e ver o valor que há em muito do pensamento ateísta. Além disso, tendo já sofrido preconceito por parte de religiosos quando era ateu, e por parte de ateus quando me tornei religioso, me faz enxergar os estereótipos e as limitações que há nos dois lados da questão.
Por isso acho sempre importante conseguir compreender o raciocínio de cada lado. Apenas isso pode levar a uma percepção mais acurada do que a de qualquer um deles.
Para fechar o post de hoje, fique com um vídeo muito bom que foi publicado noHaznos: Se os ateus dominassaem o mundo.



