A Estrada, de Jack London, é um livro sobre a necessidade de se aventurar. De abandonar o conforto em busca de emoção e vida. Auto-biográfico, relata as aventuras vividas pelo autor no final do século XIX, durante os sete meses em que vagueou pelos Estados Unidos e parte do Canadá como um vagabundo andarilho. Neste período, no final de sua adolescência (contava então com 17 anos), viveu as experiências típicas de outros road-kids, como se denominavam: viajou clandestinamente em trens, mendigou, roubou, mentiu, usurpou, dormiu ao relento, fugiu da polícia, foi preso durante um mês (passando a conviver com assassinos, ladrões e outros criminosos) e uniu-se ao “Exército de Kelly” – um exército de 2000 desempregados e famintos nômades, que viviam os reflexos da crise econômica de 1804 e vagavam de cidade a cidade, ameaçando seus habitantes de tumulto caso a prefeitura não lhes providenciasse refeições.
O livro é ambientado no período em que os EUA viviam a sua primeira Grande Depressão econômica e na qual o índice de desemprego era enorme, criando um elevado contingente de desempregados, famintos e, conseqüentemente, vagabundos. Jack London viveu uma infância e uma adolescência difíceis, marcadas pela pobreza, sub-empregos e extensas jornadas de trabalho mal pagas. Sem dúvida alguma, estas circunstâncias influenciaram a sua decisão de abandonar o american way of life e se aventurar como nômade. Contudo, o mesmo afirmava que o que lhe levou a esta decisão foi o desejo de se aventurar e ter novas experiências. Em seu diário, uma vez relatou o primeiro encontro que teve com uma gangue de road-kids quando se banhava no rio Sacramento e comentou que: “As aventuras que eles contavam faziam minha experiência como pirata de ostras parecer histórias da carochinha.”
Em seu livro, comenta mais extensamente o que o motivou:
“De vez em quando, em jornais, revistas e enciclopédias biográficas, leio esboços da minha vida nos quais, em frases polidas, dizem que foi para estudar sociologia que me tornei um vagabundo. É algo muito gentil e perspicaz da parte dos biógrafos, mas impreciso. Tornei-me um vadio por causa da vontade de viver dentro de mim, do desejo de aventura que corria em meu sangue e não me deixava descansar. A sociologia foi algo meramente acidental; veio depois , da mesma maneira que nos molhamos depois de um mergulho na água. Peguei a Estrada porque não conseguia ficar longe dela; porque não tinha um tostão no bolso para pagar por uma passagem de trem; porque não queria fazer a mesma cosia a vida intera; porque… ora, apenas porque era mais fácil do que não me aventurar.”
Esta gana de se aventurar é comum a uma grande parte dos seres humanos, porém apenas poucos – como Jack London – têm a coragem e o desprendimento para concretizá-la. Os relatos deste livro são do tipo que eriçam o desejo de também se aventurar e estimula o seguinte pensamento: “por que não jogo tudo para o alto e vou viver a minha vida sem me preocupar com as convenções?” Pois este também é um livro sobre rebeldia, tão intrinsicamente ligada que ela está à aventura. Ele nos apresenta personagens reais que desafiam as autoridadea, as convenções, enfim, toda a cultura estabelecida. Um desejo de transgressão tão presente em todos que se sentem cerceados e oprimidos pelas instituições criadas pela nossa cultura – sejam elas instituições legais ou simplesmente hábitos culturais.
Por fim, A Estrada é um livro escrito com um estilo apaixonante. É mordaz, sagaz, provocante e, sobretudo, absolutamente franco. Em suas linhas não há qualquer preocupação com a moral estabelecida e em agradar o “homem de bem”. Não há espaço para firulas ou frescuras, apenas para apresentar a vida dos road-kids tal qual ela é: dura e perigosa, mas transbordando excitação.






