A intolerância religiosa no Brasil não dá trégua

by Gabriel Mallet Meissner on 03/06/2009 · 16 comments

in Assuntos atuais


Tempos atrás, estava conversando com uma colega de trabalho sobre os crimes de intolerância religiosa que nós, praticantes de religiões afro-brasileiras (como a umbanda e o candomblé), costumamos sofrer. E ela se espantou de ainda haver crimes assim e perguntou: “mas não existe aquela lei que proíbe isso?” Sim, claro que existe. Mas de que adianta se nem as autoridades a cumprem? E os casos criminosos de intolerância religiosa continuam a acontecer no nosso país. Alguns já foram abordados neste blog, em posts passados (aqui, aqui, aqui e aqui). Hoje vou comentar mais alguns casos de intolerância que acontecem.

Leia também:

O monoteísmo sempre gera a intolerância religiosa?

Tolerância religiosa é para todos!

Como de costume, crime de intolerância acaba em pizza

Em junho de 2008, quatro evangélicos da Igreja Geração Jesus Cristo invadiram um terreiro no Rio de Janeiro (Centro Espírita Cruz de Oxalá), quebraram todas as imagens do altar, insultaram verbalmente os presentes (a maioria, idosos) e foram PRESOS EM FLAGRANTE pela polícia. A pena prevista para um crime de intolerância religiosa, previsto no artigo 20 da Lei 7.716, a chamada Lei Caó, varia de um a três anos de prisão, sem direito a fiança.

E adivinhe qual foi a resolução do Ministério Público Estadual neste caso? Enquadrar os meliantes na lei de “perturbação de culto”, sendo condenados a prestar 4 horas de serviços comunitários durantes 4 meses ou pagar uma multa de míseros R$450,00…

Como INVADIR e DEPREDAR um templo religioso pode ser considerado apenas como uma “perturbação de culto” eu realmente não entendo. O que entendo é que penas leves como essa fazem membros de outras religiões acreditarem que “vale o risco” cometer um crime de intolerância contra as religiões afro-brasileiras, que já contam com um longo histórico de perseguição.

Em nome de Jesus!

Intolerância religiosa

Em dezembro passado, eu estava me preparando para ir à festa de Iemanjá, na Praia Grande. Um ônibus fretado por nós estava estaciona estacionado em frente ao nosso terreiro e nós estávamos na calçada, carregando o que iríamos levar (atabaques, imagens etc), todos já vestidos com suas roupas-de-santo. Neste momento, uma mulher queria passar pela calçada e pediu licença. Educadamente abrimos espaço e, quando passou por nós, o fez gritando: “Em nome de Jesus!”

O que ela achou? Que se não invocasse a proteção de Jesus, ao passar por nós sairia de lá com um “encosto”? Que sua vida seria arruinada? Que iria para o inferno?

Vai entender…

“Exu picareta, exu do demônio!”

Uns três meses atrás eu estava no terreiro conversando com minha mãe-de-santo. Estávamos em uma sacada com vista para a rua, quando uma vizinha começou a gritar: “Exu picareta! Exu do demônio!”

Minha mãe deu as costas e entrou no terreiro, deixando a vizinha falar sozinha.

Quando voltei lá em outro dia, estava na mesma sacada quando outro vizinho começou a nos agredir verbalmente mais uma vez. Entendi então que receber ofensas dos vizinhos por lá, devido à nossa prática religiosa, é uma rotina.

Será que realmente precisamos disso?

E o quebra-quebra em Duque de Caxias? No que vai dar?

Em fevereiro deste ano, soube um acontecimento muito parecido com o que relatei no começo deste post. O episódio foi amplamente noticiado e pode ser lido no jornal online O Dia.

Resumidamente, o terreiro de umbanda Vovô Cipriano de Aruanda foi invadido pelo pedreiro Luciano da Silva Claudino que, portando uma marreta, quebrou o altar e muitos outros objetos religiosos do local, gritando que tinha que quebrar tudo, pois eram objetos pertencentes ao demônio.

O pai-de-santo do terreiro, Jorge Anderson Reis de Souza, precisou se trancar em um quarto e escorar a porta com um sofá, pois o agressor queria atingi-los. Jorge Anderson, que neste dia não estava sozinho e ainda teve que proteger sua esposa, tia, uma filha de santo e seu filho de apenas oito meses, diz já vir sofrente vários atos de preconceito nos últimos anos, como ter as janelas de seu templo religioso atingidas por pedras atiradas por crianças na rua.

E agora? Qual será o rumo disso? Espero que não dê em pizza como o caso da depredação do Centro Espírita Cruz de Oxalá.

Chuta que é macumba, Padre Quevedo!

Meses atrás, rolou muita discussão no orkut sobre um vídeo no Youtube, com parte de um programa da Luciana Gimenes. No vídeo, o Padre Quevedo era desafiado a ter coragem para “chutar macumba” na rua. O que ele fez diante das câmeras, com o programa tratando isso como uma cena muito engraçada.

Agora eu pergunto: qual é a diferença disso para o caso do pastor Sérgio Von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus, que chutou a santa em rede nacional? Por que este caso foi tratado como um grande escândalo, mas “chutar macumba” é uma “brincadeira” que todos aceitam e riem? Ora, o ato é fundamentalmente o mesmo. Em ambos os casos, está-se desrespeitando o símbolo da religião alheia. Porém, nunca vi alguém ser autuado por chutar uma oferenda de umbanda ou candomblé.

O vídeo em que o Padre Quevedo comete publicamente o seu ato criminoso de intolerância religiosa, obviamente, foi retirado do Youtube após ter gerado polêmica e indignação no orkut.

Emprega evangélica tenta botar fogo em patroa umbandista

Em abril, uma emprega doméstica evangélica agride e tenta queimar sua patroa, umbandista.

Precisa dizer mais?

O matéria do portal de notícias G1 sobre o fato pode ser lida aqui.

Depois disso tudo, ainda resta dúvida de que estamos longe de erradicar o fanatismo religioso e os crimes de intolerância religiosa?

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CurioLinks 2009 | 12 de Junho | Curiosando
12/06/2009 às 12:00 PM
Artigos sobre intolerância religiosa — Terra da Jurema
07/09/2009 às 8:51 PM

{ 10 comments… read them below or add one }

1 Joana 06/06/2009 às 8:38 PM

É verdade, como é que em pleno séc. XXI, ainda se permitem tais actos, mais condicentes com a Idade Média?!
A liberdade Religiosa é um Direito que a todos assiste ejá não devia ser necessário lutar por ele. Haja respeito.

Um abraço
Joana

admin Reply:

A intolerância religiosa é tão antiga que ainda vai demorar muito até ser superada. Até o começo da década de 80, ser praticante de umbanda ou candomblé ainda podia dar cadeia, por exemplo. Acredito que já se avançou muito em relação à liberdade religiosa, mas ainda resta um longo caminho até que o direito à prática religiosa seja realmente respeitado.

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2 Wagner Santos 12/06/2009 às 12:01 PM

Olá,sou evangélico, sou contra o que é pregado na sua religião, mas uma coisa eu concordo contigo, intolerancia nunca é boa. Não é porque eu não concorde que eu deva ofende-los, ou agir insanamente, em especial porque é isso que separa as pessoas. Oras, se eu quero convercê-la de que o que faz é errado (e vice-versa) não é através da agressão (física ou de palavras) que isso será feito.E é o que a Joana falou, é difícil combater algo que vem desde a idade média, ou de tempos mais remotos.

admin Reply:

Wagner, seu comentário me faz muito feliz. Pois é raro vir em evangélico ao meu blog e entender meus artigos sobre intolerância religiosa. Geralmente, acham que eu estou sendo intolerante ao comentar os crimes de intolerância (!). Vai entender.

O seu pensamento é o mesmo que o meu: não preciso odiá-lo apenas por discordarmos. Isso é muito pobre. Eu acredito na riqueza da diversidade – de opiniões, culturas e religiões.

E também o fato de haver religiões diferentes da minha não me incomodam nem um pouco. A única coisa que incomoda são as agressões gratuitas e ver como tenho irmãos de fé que realmente sofrem com crimes de intolerância religiosa. E por isso acho necessário escrever os artigos que escrevo neste blog: não para agredir os membros de religiões que nos discriminam, mas para conscientizar de que a intolerância não é o caminho.

Cada pessoa tem seu caminho na vida. Não importa que caminho você segue, desde que ele lhe faça bem e não prejudique a ninguém. Não importa que religião você seja, nem se você segue alguma religião. Importa que você seja uma boa pessoa. Ao menos é o que penso.

Abraços e obrigado pelo seu comentário. Espero que volte a este blog para comentar outros posts.

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3 Luciano 12/06/2009 às 3:05 PM

Eu sou católico e apóio totalmente o livre arbítrio do ser humano. Hoje não é concebível que esse tipo de violência seja permitida.Mas infelizmente há uma guerra religiosa rolando e ninguém escapa dela. Há as pessoas que não percebem, mas se deixam levar pelo mal e acham cegamente que estão lutando pelo bem.A maior defesa que temos é não devolver o mal com o mal e sim continuar lutando e desejando o bem delas, de coração aberto.Um abraço, paz e luz a todos!

admin Reply:

Luciano, geralmente as pessoas crêem que é uma denominação religiosa que as torna boas, quando na verdade é o seu coração e a sua mente que o faz. Se pudessem enchergar isso, veriam que há pessoas boas e ruins em qualquer religião e não elegeriam duas ou três religiões como a origem de todos as suas mazelas. Procurariam a origem dos seus problemas em si mesmos.

Obrigado pelo (ótimo) comentário!

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4 Lucho 05/07/2009 às 3:51 PM

Depois de ler esse texto, eu pergunto: Quem será que é pior, os muçulmanos xiitas lá do Oriente Médio ou os crentes evangélicos daqui do Brasil?Em termos de intolerância, os dois estão praticamente empatados.

Responder

5 Angela 06/09/2009 às 1:56 PM

Depois de ler esse texto, eu pergunto: Quem será que é pior, os muçulmanos xiitas lá do Oriente Médio ou os crentes evangélicos daqui do Brasil?Em termos de intolerância, os dois estão praticamente empatados….

Responder

6 Ana 17/09/2009 às 8:43 AM

Achei muito interessante seu post, mas a parte que me chamou mais atenção foi onde citava, acredito eu, um deslize do Padre Quevedo. Bom! Não estou justificando o padre, qualquer ato de intolerância, é inaceitável. Mas eu imagino que o acontece em casos como esse é simplesmente a falta de conhecimento, o “pré-conceito” no sentido da palavra. A macumba citada no texto é imaginada por muitas pessoas, inclusive eu, como uma coisa ruim. Algo que fizeram com algum tipo de crença mas com má fé para prejudicar alguém. Já no caso das práticas citadas por você das religiões afro-brasileiras como as oferendas, são crenças interessantes que eu até gostaria de conhecer e respeito muito. Imagino que é isso que a maioria das pessoas também tem em mente, lamentavelmente confundir uma oferenda com uma macumba. Afinal o que quer dizer a palavra macumba?  Sei que o post é antigo, mas gostaria de uma resposta, a sua opinião sobre meu ponto de vista.

admin Reply:

Ana, você está certa: oferendas realizadas por adeptos de religiões afro-brasileiras são costumeiramente confundidas com ato feitos contra outras pessoas… Porém, quando vemos uma oferenda, seja ela na encruzilhada, em uma mata, jardim, ou mesmo no cemitério, ela pode ter sido feita para os mais diferentes fins, inclusive positivos, como ajudar alguém com dificuldades financeiras ou que está doente. No entanto, por desconhecimento, as pessoas quase sempre acreditam que são feitas para prejudicar alguém, matar, acabar com casamentos etc.

Respondendo à sua pergunta, macumba é o nome de um instrumento musical africano, que antigamente era usado em alguns cultos afro-brasileiros. Quando às pessoas iam para o culto, costumavam dizer “vou pra macumba”, pois todo o culto seria feito ao som deste instrumento. Com o tempo, por preconceito, associou-se a palavra “macumba” à prática de magia negra.

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7 alexandre frança 29/09/2009 às 6:40 PM

como escreve minha casa de candomble no mapeamento religioso

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8 Luiz 18/10/2009 às 3:56 PM

Vivemos numa país atrasado, não apenas materialmente, mas ainda mais espiritualmente em estado deprimente. Na condição de ateu convicto desde a adolescência (hoje tenho de mais de 60 anos), tenho vivido como um cidadão socialmente marginalizado. A discriminação religiosa é tão prejudicial quando a racial (que está virado do avesso no Brasil), a sexual e a econômica (essa é e será eterna, infelizmente).

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9 sara levy lima 15/11/2009 às 6:39 PM

não é de admirar…o maluco do outro pastor não quebrou a imagem da santa católica??
detesto a intolerância. não sou religiosa, sou espiritualista, mas creio que a casa do pai tem montes de portas, e várias delas abrem para terreiros, igrejas, casas de pessoas, lugares espirituais, festejos de alegria, caras sorridentes, mulheres, homens, cristãos, afro-brasileiros, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, lamaístas, adoradores de Rá, bruxas, magos, ateus e tudo o mais.
Deus não existe. ele “É”!
sum qui sum!

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10 Guilherme Freitas 16/11/2009 às 2:56 PM

Infelizmente tem muita gente ignorante no mundo hoje em dia. Pessoas que são cegas pela religião, que não conseguem enxergar a diversidade do mundo. Isso é errado e provoca esses tumultos pelo planeta a fora. Não creio que um dia isso vai melhorar, porque ninguém quer aceitar as escolhas dos outros. Abraços.

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