Negro não é moreno, cazzo!

by Gabriel Mallet Meissner on 22/11/2008 · 4 comments

in Assuntos atuais


Pequenas crônicas motivadas pelo dia da Consciência Negra.
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Uma inusitada decisão

Anos atrás, meu pai tomou uma decisão inusitada, para estranhamento de muita gente. Casou pela terceira vez.
Com uma jovem da idade da sua filha.
Preta.
Não mulata. Preta mesmo. Da cor do disco.
Claro que isso deu o que falar. Não era apenas ninfeta. Era uma ninfeta escurinha.
Não vou dizer que tiveram que enfrentar horrores devido ao preconceito. Mas com certeza também não foi mamão-com-açúcar. Houve gente contra a união, comentários maldosos de todos os lados etc.
Meu pai e sua esposa, Mariana, parecem ter lidado numa boa com isso. Já durante o namoro se prepararam para que o que estava por vir.
E como é típico do meu pai – e esta é uma característica dele que me orgulho de ter herdado dele – lidou com isso com humor e ironia, rindo de várias situações inusitadas. Resolvi contar duas aqui, inspirado pela polêmica série de artigos sobre discriminação e desigualdade social que o Alex Castro está escrevendo no blog dele, Liberal, Libertário, Libertino.

A festa chique

Estavam indo a uma festa de um cliente do meu pai. Festa chique, de gente fina. Todos bem vestidos. Todos ricos ou querendo parecer ricos, ser vistos como ricos, chamados de ricos. Aquela porra toda.
Mariana escolheu um vestido azul, que lhe caiu muito bem.
No elevador que levava ao andar aonde a festa seria dada, uma mulher olhou para ela com admiração e disse:
- Nossa, que vestido bonito! E esta cor azul ficou ótima com a sua pele morena.
Mariana agradeceu o elogio. Para depois ela e meu pai rirem juntos da frase. Como assim, morena? Ela é negra, cazzo.

Sem preconceitos!

Na mesma festa, estavam ambos sentados em uma mesa com um grupo de amigos. Em certo momento, um garçom aborda meu pai.
- Desculpe, mas poderia falar com o senhor um minuto?
Meu pai assente e levanta para falar com ele, que lhe diz:
- Eu queria lhe dar os parabéns por ser um homem sem preconceitos! Porque eu sei o que é enfrentar preconceitos, pois também sou casado com uma morena!
No que meu pai responde, com ironia:
- Mas eu não sou casado com uma morena. Sou casado com uma preta mesmo.
O garçom fica desorientado com a resposta e replica.
- Hum, claro, é, é… a minha é quase preta!
E meu pai fica se perguntando: o que raios significa “quase preta”?

Suavidade…

Lembro que ri muito quando o meu pai e a Mariana me contaram estas histórias. O que a gente achava engraçado era a incapacidade das pessoas de se referirem a uma negra simplesmente como negra.
Parece que só se pode chamar alguém de negro quando se escreve uma matéria de jornal sobre um ator negro, político negro, músico negro etc.
Mas no dia, sobre negros “comuns”, referir-se diretamente à cor da sua pele não pode. As pessoas ficam cheias de dedos para dizer que um negro é negro, simplesmente.
Aí surgem as palavras substitutas para “suavizar” a sua cor.
Moreno.
De cor.
Escurinho.
Mas nunca negro.
Muito menos preto. Preto não, pelamordedeus! Ofensivo demais ser tão direto a ponto de chamar alguém que tem a pele preta de preto.
(Mas ninguém acha ofensivo chamar de branco quem tem a pele branca. Não se criam substitutivos para suavizar a sua cor, como “alvo”, por exemplo).
Engraçado que a maioria dos meus amigos negros chamam a si mesmos de pretos. Sem nóias. Sem conflitos existenciais. Sem FRESCURAS.

Minha amiga Ivone

Um dia, já após estes episódios terem ocorrido, estava num bar conversando com minha amiga Ivone.
Ivone é uma grande amiga que, infelizmente, só vejo de tempos em tempos, que conheci em um grupo de prática de Reiki (ambos somos reikianos) e com quem já tive conversas muito gostosas, inteligentes e recheadas de bom humor.
Também é preta e também ri da maneira como as pessoas não conseguem chamá-la da sua cor.
Quando contei a ela os episódios acima ela dava sonoras e deliciosas risadas. Conseguia se reconhecer perfeitamente nelas. Tinha vivido outras muito semelhantes.
Conversamos muito sobre essas palavras substitutivas, que tentam suavizar a cor de pele dos negros.
Cazzo, a sua cor tem que ser suavizada por que exatamente?!
O que concluímos é que as pessoas não chamam os negros de negros ou de pretos, por medo de parecerem preconceituosas. As palavras substitutas seriam maneiras não preconceituosas de dizer que o óbvio ululante: que quem tem a pele preta é preto. Ou negro, se preferir.
A opinião da Ivone, com quem concordo inteiramente, é que esta é uma inversão de valores. Não é dizer “negro” ou “preto” que é preconceituoso.
Preconceituoso é achar que precisa usar palavras que disfarcem a real cor dos negros/ pretos.

Uma linda mulher

Preto é lindo.
Não é só roupa preta que é bonita, não.
A pele preta é linda também.
Ontem estava na Fnac quando tive uma feliz visão. Saía da loja uma das mulheres mais lindas que vi nos últimos tempos. Rosto delicado, mas não demais, sem parecer bonequinha. Maravilhoso. Corpo “caliente”, não era boazuda, mas tinha tudo o que nós, homens, valorizamos e tudo muito bem proporcionado.
E olhando aquela maravilha de Deus, percebi uma coisa: a sua pele negra a tornava ainda mais linda. Se aquela mulher fosse branca, seria bonita, com certeza. Mas não tanto.
Fiquei imaginando poemas, odes, à sua pele. Grandes versos poderiam ser escritos sobre sua pele preta.
Todos estes versos seriam arruinados se, ao invés de a chamarem de preta, chamassem-na de escurinha. Ou de qualquer outra bobagem semelhante.

Teoria vs. Prática

Outro dia conversei com uma colega de trabalho, que é formada na PUC em Ciências Sociais.
Na sua graduação, ela fez um estudo que concluiu, entre outras coisas, que os negros quando são chamados de pretos – ou quando chamam a si mesmo de pretos – têm uma baixa em sua auto-estima.
Um amigo meu, vários anos atrás, dizia que achava um absurdo quando as pessoas o chamavam de negro. Preferia preto mesmo. Negro, para ele, era uma maneira de tentar disfarçar a sua cor. Preferia preto, que é mais direto e mais honesto.
Ele não parece sofrer dessa tal baixa-estima, não.

Beleza negra

Para finalizar, o Rodrigo Piva, do blog Curiosando fez esses dias justamente o que eu estava pensando em fazer. Droga, ele foi mais rápido!
Em homenagem ao dia da Consciência Negra, neste post ele publicou fotos das mais belas negras, na sua opinião (e eu concordo bastante com a sua lista!).
Deleite-se com as fotos de:
Beyonce Knowles
Rihana
Tyra Banks
Melanie Brown
Halle Barry (essa não podia faltar!)
Naomi Campbell
Isabel Filardis
Sheron Meneses
Cinara Leal
Elaine Alves
E para não deixar as brancas de fora, escolheu logo a mais gostosa e sexy de todas: Scarlett Johansson.
Só senti falta de mais brasileiras da lista do Curiosando. Em especial de Taís Araújo. Então segue aqui a minha homenagem à beleza da negra brasileira, representada por esta atriz:





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Entremundos » Serviço de preto
13/12/2009 às 2:49 PM

{ 3 comments… read them below or add one }

1 Anonymous 22/11/2008 às 8:16 PM

muito bom. alex castro.

Responder

2 Rodrigo Piva 02/01/2009 às 8:32 PM

Parabéns pelo belo artigo, Gabriel!
Muito agradável de ler e me diverti bastante com as histórias do seu pai É incrível mesmo essa “cultura” de se chamar os negros de morenos “pessoalmente”. Coisas que um dia ainda vou entender.

E obrigado pela referência ao Curiosando. Quando publiquei o artigo citado, não encontrei a tempo fotos da Taís, mas isso foi brilhantemente corrigido por você, parabéns!

Abração e parabéns pelo site.

Rodrigo Pivapostou em seu blogNQMM | Notícias Que Mudam o Mundo #8

Responder

3 admin 02/01/2009 às 8:43 PM

Rodrigo, obrigado pela visita e pelo comentário!

Responder

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