As Histórias de Nasrudin, o Sábio Tolo do Islã

by Gabriel Mallet Meissner on 14/07/2008 · 3 comments

in Literatura

Estará a sabedoria sempre associada à seriedade?

As histórias de Nasrudin mostram que não e que um mestre místico não precisa ser sisudo (e talvez nem deva ser!). Nasrudin é uma personagem da literatura árabe, perfeita representação do “sábio tolo”. Através de sua aparente tolice, cria situações desconcertantes e paradoxais que nos leva a perceber nossos padrões condicionados de pensar e de viver e a quebrar com eles. Com seu humor, ele nos faz rir de nós mesmos e enxergarmos além do óbvio.

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Nasrudin teria sido um mestre sufi que viveu no Oriente Médio há mais de 600 anos. Se existiu realmente ou se é apenas uma personagem fictícia é irrelevante. O fato é que suas histórias estão carregadas da sabedoria do sufismo, a tradição mística do Islã.

O mais interessante nestas histórias é que elas possuem vários níveis de leitura e interpretação. Elas podem ser lidas como mero entretenimento humorístico. Igualmente, podem ser lidas como uma crítica aos modos convencionais de pensar e de viver. Outra leitura, a que mais interessa aos adeptos do sufismo, é considerá-las como difusoras de verdades espirituais.

Pouco importa que leitura você dará a estas histórias. De qualquer forma, a sua leitura é garantia de um tempo bem aproveitado!

O barco e o homem letrado

Em dada ocasião, Nasrudin estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá disse algo que contrariava as regras gramaticais:

- Você nunca estudou gramática? – perguntou o estudioso.

- Não, nunca – respondeu Nasrudin.

- Nesse caso, metade de sua vida se perdeu – retrucou outro.

Nasrudin ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:

- Você nunca aprendeu a nadar? – disse o Mullá ao homem letrado.

- Não, nunca – este respondeu.

- Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.

Aprendendo a conversar com Deus

Nasrudin, certa vez, estava sem um burrico que o ajudasse em seus afazeres. Desesperado, sem ter meios de encontrar um começou a orar, pedindo a Deus que lhe enviasse um burrico. Rezou por algum tempo e, certo dia, ao andar por uma estrada, deparou-se com um homem montado num burrico e atrás estava um outro burrico mais jovem. Nasrudin aproximou-se do homem e este lhe disse:

- Mas que vergonha, eu estou trazendo um burrico de tão longe, estamos todos esgotados, e aqui está este homem descansado, sem fazer nada! E ameaçando-o com uma espada, completou:

- Vamos! Coloque o burrico nas suas costas e venha comigo até a próxima cidade!

Nasrudin, com medo não disse nada, simplesmente colocou o burrico em suas costas e seguiu o homem.

Andaram por várias horas e Nasrudin estava exausto de tanto peso. Ao entardecer, chegaram na cidade mais próxima e o homem simplesmente fez Nasrudin descer o burrico das suas costas e seguiu adiante, sem sequer agradecer. Nasrudin ergueu os seus olhos para o céu e disse:

- Está bem, Deus. Aprendi a minha liçãoo. Na próxima vez serei mais
específico…

Acreditando em sonhos

“Nasrudin vivia numa cidade pacata e muito pequena. Um belo dia, Nasrudin foi passear e estava com um copo de leite nas mãos. Andou, andou e resolveu parar na beira de um rio que existia na cidade. Olhou para o rio e jogou o leite dentro dele. Pegou um galho de árvore e começou a mexer no rio com movimentos circulares, sem parar. O Prefeito da cidade, que estava fazendo uma ronda, viu aquilo e pensou que Nasrudin estivesse ficando louco. Então, resolveu se aproximar para averiguar melhor o fato. — Nasrudin, o que você está fazendo? — Estou fazendo iogurte! — Você está maluco! Disse o Prefeito. Mesmo que você jogue e litros de leite seria impossível fazer iogurte!!! O rio é muito grande. Nasrudin então, olhou bem nos olhos do Prefeito e disse: — Você já pensou se fosse possível? “


Quando descobrir conto

Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se a multidão: “Ó povo deste lugar ! Querem conhecimen
to sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício ?”

Logo juntou-se um grande número de pessoas com todo mundo gritando: “Queremos ! Queremos !”

“Era só para saber”, disse o Mullá. “Podem confiar em mim, contarei tudo a respeito caso algum dia descubra algo assim”.

Papagaio e o Corvo

Numa linda manhã de domingo, Mulla Nasrudin passeava no mercado. Qual não foi sua surpresa ao deparar com seu amigo Yussuf: este segurava uma gaiola com um pequeno papagaio, cujo preço de venda era três peças de ouro!

Escandalizado, o Mulla gritou:

– Yussuf, como seatreve a pedir tal soma por um mísero papagaio? Yussuf encarou Nasrudin severamente e disse:

– Fique sabendo, Mulla, que eu peço um preço justo. Este não é um pássaro qualquer: ele fala!

Sem saber o que responder, Mulla seguiu seu caminho. Uma hora mais tarde, grande foi a surpresa de Yussuf quando viu seu amigo Mulla instalar-se ao seu lado, trazendo uma gaiola com um velho corvo. Pregado à gaiola, um letreiro anunciava o preço: doze peças de ouro!

– Ladrão! Escroque! – gritou Yussuf, ver melho de raiva. – Você não tem vergonha de pedir um preço desses por um velho corvo depenado?

– Não – respondeu calmamente Mulla Nasrudin. – É verdade que é um corvo
velho, é verdade que ele não fala, mas este não é um pássaro qualquer: ele pensa!

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