O que é mais estimulante neste livro são os múltiplos níveis de interpretação que ele permite ao leitor.
Da maneira como é escrito, sua seqüência de 120 quadras permite considerar o autor um simples hedonista, cínico e, em alguns momentos, talvez depressivo.
Esta, porém, é uma interpretação rasteira e é uma delícia ler cada um dos seus poemas com atenção e buscar sentir – sim, sentir e não interpretar! – o sentido mais profundo implícito neles.
Lembro que, quando o li pela primeira vez, me impressionaram o seu hedonismo, seu sensualismo, seu espírito Carpe Diem, despreocupado e livre.
Posteriormente, em uma releitura, foi-se abrindo a mim um misticismo da maior envergadura, presente em poucas obras literárias.
Inicialmente a primeira interpretação me pareceu muito rasteira, enquanto a segunda se mostrava profunda, fazendo jus à personalidade distinta do autor.
Porém, ao ler o Rubayat com mais atenção, passei a perceber que ambas as interpretações era tolas e incompletas.
Seus versos são profundamente místicos, sim. Porém não transcendentais. Não negam, nem se opõem ao despreocupado espírito Carpe Diem da primeira interpretação. O autor não se entrega simplesmente ao mundo, nem busca escapar dele para uma realidade metafísica. Ao contrário, sua experiência mística jorra sobre o mundo e mistura-se com ele. Nesta mistura, nesta união, as convenções artificiais, as vaidades, as distinções entre opostos (rico x pobre, sábio x ignorante, religioso x libertino etc) são desprezadas e vistas como ilusórias.
Esta mistura é muito bem representada pelo símbolo principal da obra: o vinho!
O vinho, que provoca a embriaguez, condenada tão veementemente pelo islamismo. Que representa o hedonismo, a sensualidade, a ignorância. E que, ao mesmo tempo, para o sufismo – a tradição mística do Islã – é uma metáfora da experiência mística. É a embriaguez divina, em que o homem perde a noção de si mesmo, do ego, é torna-se um com Deus.
Este duplo significado do vinho – sagrado e profano – torna evidentes as múltiplas interpretações da poesia de Omar Khayyam e a beleza de seus versos.
Selecionei uma série de poemas deste livro, que acredito que representem os seus principais temas, entre eles:
- A desconfiança em relação aos sábios, eruditos e a ortodoxia religiosa
- A transitoriedade do mundo
- A insignificância do indivíduo ante a grandeza do universo
- Carpe Diem
- Admissão da própria ignorância e da impossibilidade de sondar os enigmas do universo
- A experiência mística
- O Amor
Mas, antes de ler a seleção de poemas, vale a pena saber um pouco mais sobre o autor:
Omar Khayyam nasceu em torno de 1044. Foi matemático, astrônomo, filósofo, médico e poeta persa, como ficou mais conhecido.
Pouco se sabe sobre sua vida. Mas é certo que foi altamente instruído para o seu tempo, tendo viajado para os grandes centros intelectuais persas de sua época. Vivido uma vida sem grandes agitações e dedicada a busca do conhecimento, tendo falecido em 1123.
De todas as suas atividades, ficou mais conhecido como poeta, por ter escrito os Rubayat, considerada por muito como uma das maiores obras de literatura universal. Sua obra poética tornou-se conhecida em 1839, graças à tradução inglesa realizada e publicada por Edward Fitzgerald.
Saiba mais sobre Omar Khayyam, clicando aqui.
É bom lembrar também que para captar o espírito deste livro é importante lê-lo na íntegra e na seqüência. Cada poema está relacionado com o anterior e a seqüência em que se apresentam não é aleatória.
A íntegra da obra, de onde selecionei estes versos, pode ser lida online aqui.
Poemas selecionados de Rubayat
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
7
Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.
9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?<
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14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?
17
Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.
18
Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.
21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.
23
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
28
Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.
37
Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.
45
O oleiro ia modelando as alças e os contornos
de uma ânfora. O barro que ele conformava
era feito de crânios de sultões
e mãos de mendigos.
46
O bem e o mal se entrelaçam no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem o acuses:
Ele é indiferente.
47
Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.
53
Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se regalem com as passas.
56
Só de nome conhecemos a felicidade.
O nosso melhor amigo é o vinho;
afaga a única que te é fiel: a ânfora,
cheia do sangue das vinhas.
58
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.
59
Pessoas presunçosas e obtusas inventaram
diferenças entre o corpo e a alma.
Sei apenas que o vinho apaga as angústias
que nos atormentam, e nos devolve a calma.
66
Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.
72
No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho.
80
O que realmente possuo?
O que restará de mim depois da morte?
É tão breve a vida, uma fogueira:
Chamas, e depois, cinzas.
81
Convicção e dúvida, erro e verdade:
são palavras, como bolhas de ar;
brilhantes, ou baças: vazias,
como a existência dos homens.
87
Alguns sábios da Grécia sabiam propor enigmas?
É absoluta a minha indiferença por tanta inteligência.
Dá-me vinho, minha amiga; deixa-me ouvir o alaúde,
olha como lembra o vento que passa, como nós.
91
O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se
consumindo no prazer e na dor.
92
Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.
94
Nunca rezei nas mesquitas, mas antes
ainda sentia uma tênue esperança.
Agora gosto de me sentar lá;
aquela sombra é propícia ao sono.
105
A aurora encheu de rosas a taça do céu,
e o último rouxinol canta o seu meigo canto;
e ainda há quem pense em honras e glórias…
Vem, menina… que sedosos são os teus cabelos…
109
Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.
113
Estudei muito e tive mestres eminentes
e me orgulhava dos meus progressos e triunfos.
Agora lembro-me do sábio que eu era: era como a água
que toma a forma do vaso, como a fumaça ao vento.
115
Despe-te dessas roupas que te envaidecem
e que não trazias ao nascer;
os teus conhecidos não te cumprimentarão mais,
mas em teu peito cantarão os Serafins do céu.
120
Rosas, taças, lábios vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha.







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Li o Rubayat pela primeira vez há 27 ou 28 anos atrás. E sempre a cada vez em que o releio uma nova descoberta, um novo sentido antes não percebido, está lá nas linhas e nas entrelinhas. Há uma quadra em especial que ao meu ver é a síntese da obra inteira. Diz assim: “Bebo do vinho assim como o salgueiro bebe da torrente da água cristalinha. Deus me fez sabendo muito bem que eu beberia. Se eu me abstivesse de beber, Deus falharia.”
Isso é absolutamente fantástico.
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