Não é segredo que violência urbana é um problema grave nas grandes metrópoles. Infelizmente, sei disso por experiência própria. O relato abaixo conta como fui vítima do crime em São Paulo, mas não apenas isso. Também mostra como superei o trauma deste acontecimento e o que aprendi com ele. As reflexões abaixo podem ser úteis a todos que se preocupam com esta questão.
Em dezembro de 2005, minha namorada e eu fomos mais duas vítimas de uma violência já trivial em São Paulo: assalto à mão armada. Voltando de madrugada de uma festa, estacionamos o carro em frente à minha casa e fomos abordados por dois assaltantes armados, que nos obrigaram a abrir minha residência, nos vendaram, nos trancaram no banheiro, roubaram vários objetivos de minha residência e o carro de minha namorada.
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Assim como muitos que passaram por esta experiência, o que mais me feriu não foi a perda financeira, mas a violência moral, o sentimento de impotência que me consumiu durante dias, apesar de minha tentativa de lidar com a situação de maneira equilibrada, de não me alterar e manter a cabeça fria.
E eu o consegui! Mas não antes de expressar toda a minha raiva e frustração. Certa noite, tentei ouvir alguns CDs em um aparelho de som que não funcionava direito e que por isso eu não tinha o costumo de usar. Porém, como o aparelho que eu usava havia sido levado pelos assaltantes, era minha única opção. Quando o aparelho não rodou nenhum dos CDs que coloquei nele, todo o ódio que eu sentia pelo criminosos tomou conta de mim e passei a destruir o aparelho com as minhas próprias mãos, enquanto os xingava como se estivessem lá – “filhos da puta! Filhos da puta”, eu gritava sem parar.
Terminada a catarse, eu estava bem. Sentia-me equilibrado, tranqüilo e em paz. Em alguns dias, desapeguei-me do ocorrido. E, ao invés de me lamentar dele, decidi aprender com ele.
A aprendi a não odiar os dois criminosos que me assaltaram. Primeiro que entendi que o ódio não prejudicaria a ninguém, a não ser a mim mesmo (“guardar um ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”, disse Shakespeare, sabiamente). Segundo que não vejo como acontecer algo terrível a eles possa me trazer alento.
Assim, não desejo – como muitos desejariam – que sejam crivados de bala pela polícia, torturados ou estuprados na cadeia. Desejo justiça, sim – mas não retaliação. Desejo que sejam capturados, punidos e reabilitados para a vida em sociedade. Sei que em nosso sistema carcerário as chances disso acontecer tendem à zero e que é mais possível que, se presos, a prisão os torne piores ao invés de melhores; ainda assim, é o meu desejo.
É meu desejo que estes dois criminosos se arrependam, aprendam que não serão felizes tirando o que é meu (assim como eu não sou feliz devido às minhas posses, mas apesar delas) e me tratando de forma humilhante e que encontrem felicidade e realização dentro de si mesmos e não contra os outros. Assim, desejo-lhes o mesmo que desejo à minha família, aos meus amigos, a um estranho e a mim mesmo. Pois todos, sem distinção, estamos mais ou menos doentes e necessitamos do mesmo remédio: encontrar a felicidade inabalável que reside em nossos corações e a qual não pode ser roubada, mas apenas oculta de nós por nós mesmos.
Se de alguma maneira estes dois assaltantes aprenderem esta lição, não desejo mais nem que sejam presos. Pois o propósito da prisão, que deveria ser estes, já terá sido alcançado. E ainda que as chances disso acontecer possam ser pequenas, torço que aconteça, pois creio ser possível.
Apesar de todas as atrocidades que vejo cotidianamente, de todas as violências que já sofri, de todas as notícias terríveis que recebo pela mídia, estou resoluto a não perder a esperança no ser humano jamais. Nunca perderei a fé no potencial que todos, mesmo o mais atroz dos criminosos, temos de desenolver nosso dom precioso: o sentimento de união com todos os seres. E tudo aquilo que advém deste sentimento – responsabilidade para consigo mesmo e para com o mundo, compaixão e amor incondicional pelo próximo.
Creio firmemente neste potencial porque, voltando meu olhar para o meu íntimo e sendo honesto comigo mesmo, vejo-o lá. Dormente em grande parte e esperando para ser desperto, é verdade, mas não tenho dúvidas de que está lá. E, se está em mim, tenho certeza absoluta de que está em todos. Pois, como disse La Boetie, a natureza nos fez todso “da mesma forma e (…) na mesma fôrma.” Se este potencial não estivesse nos assaltantes que invadiram minha casa, não estaria em mim, como acredito que esteja.
Portanto, faço minhas palavras as do poeta Thiago de Melo: “apesar do próprio homem, ainda é tempo.”


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Parabéns meu amigo pela bonita lição e pensamento.
Não devemos nos esquecer que o mal que fazemos a outro, fazemos a nós mesmos. Mais cedo ou mais tarde isto será revelado.
Abs
Os assaltos têm aumentado na minha cidade. A terceira do estado, em população.
Dizem, que quando isso acontece, é porque o tráfico está rendendo pouco.
Moro em uma cidade de quase 40.000 habitantes. Pequena se considerarmos a média, mas aqui as coisas estão saindo do controle das autoridades. Muitos dirão que é exagero, porém, o descaso com a violencia sofrida por pessoas comuns é muito grande. Toda a atenção das pessoas vão para tipos bem estabelecidos na cidade, políticos e autoridades outras. Enquanto pessoas comum sofrem perdas, é apenas um número nos boletins de ocorrência, mas quando envolve gente dita “grossa” influente ou mesmo poderosa, das duas uma : Ou a mobilização acontece rapidamente e todos acabam de alguma forma se comovendo ou é abafado. Tudo vai do interesse e da conveniência. Sua atitude é louvável, a maneira que pensa. Parabéns. Não que discorde de você ! Mas se houvesse mais cuidado e atenção do estado com a Segurança Pública muitos crimes não ocorreriam. A Omissão de quem deveria trabalhar para coibir e lutar pelo bem comum a todos cai por terra no momento que a autoridade usa pesos e medidas diferentes para julgar esse ou aquele cidadão.
Gabriel Mallet Meissner Reply:
fevereiro 7th, 2010 at 9:36 AM
Paulo, concordo com você. A omissão das autoridades sem dúvida é um incentivo a este tipo de violência. E o buraco é ainda mais embaixo, pois não é apenas questão de preocupação com segurança pública, mas também com questões sociais, com a (falta de) preocupação em criar mais oportunidades de trabalho honesto, para evitar a atração que o mundo do crime exerce em quem tem poucas chances de sucesso na vida.